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Artigo Ney Lopes: “Estados Unidos em dia de eleição”

Ney Lopes – jornalista, ex-deputado federal e advogado – nl@neylopes.com.br

Após a acirrada campanha eleitoral do Brasil encontro-me nos Estados Unidos nesta terça feira, 6, (quando escrevo o artigo), dia em que os americanos vão às urnas, nas chamadas eleições de “meio de mandato”.
A média histórica de comparecimento é de 30% a 40% (voto facultativo). Serão eleitos Governadores em 36 estados e no Congresso o preenchimento de 435 vagas de deputados, com mandatos de dois anos e trinta e cinco das 100 cadeiras de senadores, com mandatos de seis anos, além de ocupantes de cargos públicos nos estados e municípios.

O curioso é que há 173 anos, os eleitores americanos somente votam na terça-feira, apesar das dificuldades que representa para os cidadãos do século XXI irem às urnas em dia útil. Na América Latina, a votação é no domingo. Percebe-se grande diferença entre um dia de eleição na América do Norte e no Brasil.

Em Nova York recorro aos serviços de um casal brasileiro, ele nascido em SP, criado no Maranhão e casado com cearense: Leco Campos e Danielle Mota. Eles, desde 2009 mantêm empresa de atendimento turístico (www.lecotur.com), com serviços excelentes.

Dessa vez reencontrei Leco orgulhoso. É que há um ano participou de “vaquinha” para pagar a estadia de convidado especial, que desejava conhecer pessoalmente, juntamente com outros brasileiros residentes na cidade. Nada mais, nada menos, do que o então aspirante à candidato Jair Bolsonaro.

Segundo ele, todos os seus amigos ouviram as propostas e ficaram confiantes. Alguns, até já pensam em voltar ao Brasil.

Leco, embora radicado em NY, não esquece as origens brasileiras. Há dez anos mobiliza recursos com clientes do nível do empresário Benjamin Steinbruch, presidente da CSN, e mantém em Brasília a associação “Esporte e Vida” (www.esporteevida.com ), onde atende cerca de 500 crianças e familiares, oferecendo oportunidades no esporte e laser.

Nesta terça, 6, de “lap top” a mão para concluir o artigo e enviá-lo à TN, saí cedinho com Leco, de NY para Filadélfia (190 km), a primeira cidade norte-americana a receber o título de Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, por ser o local onde foram debatidas e assinadas à declaração de independência e a constituição americana, em 1776.

Desejava observar um dia de eleição na terra onde nasceu a democracia americana.

Igual ao que vi em NY, Filadélfia dava a impressão de um dia absolutamente normal. Nenhum sinal de eleição nas ruas. Nada de cartazes, ou out door.

Já assistira nos Estados Unidos, como observador parlamentar, convenções para a escolha de candidatos à presidência do Partido Republicano (1992), em Houston, Texas.

À época George Bush saíra glorificado da guerra do Kuwait e foi o indicado, mas perdeu a eleição para Bill Clinton.

A outra em 2000, dos democratas, no estádio “Staple Center”, Los Angeles, com a indicação de Al Gore para suceder Clinton. Depois de longa polêmica jurídica e suspeitas de fraude, Al Gore foi derrotado por George W. Bush.

Leco opina sobre as eleições desta terça, que poderão influir em possível impeachment de Trump (seria o primeiro na história do país), caso os democratas façam maioria.

Diz ele: “Serão“duríssimas, Os democratas acordaram. Eles achavam que Hillary ganharia fácil e não foi bem assim. Agora estão dando “tudo” e o resultado é imprevisível”.

No último domingo em NY, um recepcionista do hotel me disse que já havia votado, desde o mês passado. Situação curiosa para nós brasileiros. É que em muitos estados, a permissão de votar começa entre quatro e cinquenta dias, anteriores ao dia das eleições.

Taxista com quem conversei mostrou indignação com Trump, chamando-o de farsante e estimulador da violência. Sobre as melhorias econômicas no país disse que realmente elas ocorrem, mas são consequências de ações do governo Obama, que Trump está se beneficiando. Citou que uma nova “bolha” imobiliária se aproxima, igual a 2008, com grave crise econômica.

Quando este artigo for publicado, já serão os conhecidos os resultados das eleições de “meio de mandato” nos Estados Unidos.

Pelo que pude ler e ouvir na mídia, uma vitória do partido Democrata terá impactos desfavoráveis à Trump, sobretudo na investigação sobre a interferência russa nas eleições presidenciais.

Por outro lado, os Democratas enfrentam séria crise de identidade política. O partido divide-se entre os pretendentes à presidência em 2020, Joe Biden, de 78 anos à época e Bernie Sanders, que terá 77 anos, o senador defensor de avanços sociais, que teve grande apoio nas primárias passadas.

Os rumos políticos futuros dos Estados Unidos interessam especialmente ao Brasil, diante da notória identidade política entre Trump e Bolsonaro.

Afinal, é comum repetir-se que “gripe na economia americana ocasiona pneumonia global”.

Um “impeachment” na Casa Branca seria desastroso!

Artigo Ney Lopes: “O Brasil de Bolsonaro e o RN de Fátima”

Ney Lopes – advogado, jornalista e ex-deputado federal – nl@neylopes.com.br – www.blogdoneylopes.com.br

Em editorial na última segunda, o “Estado” afirmou: “Se há um ano alguém dissesse que Jair Bolsonaro tinha alguma chance de se eleger presidente da República, provavelmente seria ridicularizado”.

No início do processo eleitoral, o autor deste artigo opinou que seria inadmissível, em razão da convivência com ele no Congresso Nacional e saber das suas posições históricas como político militante há 30 anos.

Entretanto, diante da degradação da classe política em geral, o Capitão encantou o eleitor e ganhou, como antítese do lulopetismo. Ponto final! Não há o que discutir.

No Rio Grande do Norte, a senadora Fátima Bezerra chega ao Palácio Potengi para governar Estado falido.

Não será fácil vencer o desafio.

Com vivencia, adquirida ao longo de vários mandatos legislativos, terá que demonstrar competência, imparcialidade e criatividade como gestora pública.

De agora por diante, só resta torcer para que o vencedor seja o Estado Democrático. Nunca é demais recordar a advertência de Montesquieu, de que para evitar o abuso do poder é necessário que o poder seja freado, assegurando o equilíbrio.

São os chamados “freios e contra pesos”, traduzidos na independência e harmonia do Executivo, Legislativo e Judiciário, poderes que terão de estar acima de todos os outros segmentos da sociedade, sem restrições e tutelas, com absoluto respeito às suas decisões.

Desacreditar nessa regra é adotar a selvageria dos regimes de exceção, de direita ou de esquerda.

Na Alemanha em 1933, os nazistas queimaram mais de 20 mil livros, revistas, fotografias e publicações de filósofos, cientistas, poetas, de escritores judeus, de homossexuais, pacifistas, antimilitaristas, sobre sexualidade e outros assuntos considerados não éticos.

Como sempre acontece, tal barbárie consumou-se, a pretexto da defesa da pátria, moral, família e o combate à degeneração dos costumes.

No local desse crime existe hoje monumento com o nome dos autores das obras queimadas, para que aquele sinistro acontecimento não se repita. Numa lápide lê-se a frase do poeta Henrich Heine: “Onde se queimam livros, no final também se queimam pessoas”.

Outro exemplo histórico é de Winston Churchill. Como líder britânico da Segunda Guerra ergueu a resistência ao ditador alemão Adolf Hitler e recebeu consagrações populares, porém conheceu como poucos os dois lados da moeda: popularidade e o desprezo posterior.

Em 1945, no fim da II Guerra Mundial, a sua reeleição para primeiro-ministro era indubitável. Abertas as urnas, perdeu.

Por quê?

Pelo fato do povo temer o seu estilo, ao perceber que ele só acreditava em métodos violentos, de guerra e uso da força militar. Churchill não tinha projeto para a paz, visando à união da Grã-Bretanha e reconstrução social do país.

A democracia não é um sistema desprovido de mecanismos eficazes de combate à corrupção e a violência, como alega a ultra direita.

Ela pode ser forte, com base na lei, quando aplicada. Punitiva, sem negar o direito de defesa.

No período “pós-eleição” que se inicia no Brasil, a “busca da união nacional”, sem adesismos, coloca-se como a única alternativa capaz de evitar os graves riscos das ameaças da intolerância e da força.

Torna-se impossível governar país dividido. Receita para união nacional seria o estímulo à formação de coalizão, com moderados de lado a lado, capazes de fazer concessões, desencorajar as lutas radicais, as disputas, a violência e fortalecer a convivência, tolerância, direitos humanos, respeito à crítica, legalidade, eleições livres e alternância de poder.

Com situação política muito mais grave do que o Brasil, a Colômbia deu exemplo recente e pacificou uma guerra interna de 52 anos.

O líder das Forças Alternativa Revolucionária, Timochenko, resumiu o pacto colombiano ao dizer, que “paz não significa que “o capitalismo e o socialismo vão soluçar abraçados um nos braços do outro. Mas que a disputa ideológica agora poderá ser feita sem armas, através da política e da democracia plenas”.

No México, o extremista Andrés Manuel López já apela à conciliação nacional.

Lembrando César diante do Rubicão, os brasileiros exclamam: “Alia jact est” (A sorte está lançada).

Ao mesmo tempo é repetida com fé, a oração do teólogo Reinhold Niehbuhr, desejando ao Presidente Jair Bolsonaro e a Governadora Fátima Bezerra, que “Deus lhes dê serenidade para aceitar as coisas que não possam mudar, coragem para mudar as que possam mudar e sabedoria para saber a diferença”.

Artigo Ney Lopes: “Janela aberta no segundo turno do RN”

Ney Lopes – jornalista, ex-deputado federal, Professor Titular de Direito Constitucional da UFRN e advogado – nl@neylopes.com.br

Domingo, o eleitor fará a opção, da qual dependerá a abertura de caminhos, que possam retirar o estado do caos em que se encontra, com o maior déficit público de todo o nordeste (R$ 1.3 bi).

A experiência confirma, que o eleito não poderá governar sozinho, sem ter diálogo com o governo federal e assim alcançar a governabilidade. O que aconteceria, por exemplo, Carlos Eduardo com Haddad presidente? Ou, Fátima com Bolsonaro?

Não há dúvida que assistiríamos uma “queda braço”.

Como diz o velho ditado popular, “na briga entre o mar e o rochedo, quem perde é o marisco” e no caso seria o RN.

A propósito, a candidata Fátima Bezerra (PT) desmentiu na FIERN e na Inter TV Cabugi, a hipótese de que o RN se tornaria ingovernável, caso ela ganhasse a eleição e o presidente fosse Bolsonaro.

Citou os governadores do PT no nordeste que foram reeleitos no primeiro turno, sendo oposição a Temer. Assegurou que chegaria a Brasília com a força política de dois Senadores e dois deputados federais do PT eleitos.

Todavia, a realidade é totalmente diferente, do que afirmou Fátima.

Senão vejamos.

Os governadores reeleitos do PT no nordeste não sofreram restrições políticas do governo federal.

A saída de Dilma ocorreu na metade dos mandatos e todos eles foram reeleitos, com a “ajuda de Temer”, com quem preservaram alianças políticas, sem o que teriam fracassado na administração.

Os estados não sobrevivem apenas com as transferências constitucionais obrigatórias. O PT aliou-se aos correligionários de Temer na Paraíba (o deputado Aguinaldo Ribeiro, líder do governo Temer e até ao líder do DEM, deputado Efraim Filho); Alagoas (governador Renan Filho do MDB); Piauí (governador petista Wellingon Dias, além do MDB foi apoiado por quatro legendas ligadas a Temer – PP, PTB, PR e PSD. Na Bahia, o petista Rui Costa teve o apoio de seis partidos ligados a Temer.

Em Sergipe, PT e MDB aliados. No Ceará foi emblemático: o PT “rifou” a candidatura de José Pimentel (PT) para apoiar Eunício Oliveira do MDB. Em Pernambuco, a mesma coisa com o “sacrifício” de Marília Arraes (PT) para firmar aliança com o MDB e outros aliados de Temer.

O quadro político atual é totalmente diferente. A hipótese de Bolsonaro presidente e Fátima governadora significaria clima de confronto permanente entre o governo estadual e o federal.

A candidata Fátima Bezerra não esconde ataques pessoais ao candidato Bolsonaro e sempre se coloca como defensora radical do ex-presidente Lula.

Em tal situação, o RN estaria ingovernável e condenado a viver à míngua. Fátima jamais aceitaria um governo anti-PT e transformaria o Palácio Potengi em palanque de oposição permanente ao Planalto, com o apoio solidário da amiga Gleisi Hoffman e correligionários petistas.

Todos os senadores e deputados federais citados por Fátima como “trunfos” seriam adversários ortodoxos do governo federal e aprofundariam o “fosso” de dissidência política.

Na tentativa de imobilizar politicamente o adversário, Fátima e o PT desqualificam o apoio dado por Carlos Eduardo a Jair Bolsonaro.

Deixam de considerar, entretanto, que o segundo turno eleitoral exige espírito público do candidato a governador, pelas responsabilidades assumidas com a população de um Estado, onde até os salários do funcionalismo estão atrasados há meses.

É o caso de perguntar: como Carlos Eduardo poderia subir no palanque do PT, tumultuado e cheio de discriminações?

O PT não absorve contrários e somente abre exceção, quando prevalece o “conchavo por baixo do pano”, cujo exemplo deplorável ocorreu na última sexta feira em Natal, com as adesões à Fátima, de conhecidos personagens políticos estaduais, envolvidos em “seis operações policiais” e ações criminais, em tramitação na justiça.

Independente de quem goste ou não de Bolsonaro, a verdade é que o candidato Carlos Eduardo ao apoiá-lo abriu uma “janela” de diálogo com o governo federal, por ter consciência de que isolado não faria milagre.

Ele fez a parte que lhe competia, como aconselha o sábio Gurdjieff:

“Hoje é o que é porque ontem foi o que foi. E se hoje é como ontem, o amanhã será como hoje. Se quiserem que o amanhã seja diferente, deverão tornar o dia de hoje diferente. Faça o que puder, não se queixe dos outros”.

Será um risco gravíssimo para o Rio Grande do Norte “fechar” a “janela” aberta por Carlos Eduardo, ao apoiar Jair Bolsonaro.

O RN não merece isso.

A sorte está lançada!

Artigo Ney Lopes: “Incertezas na largada do segundo turno”

Com incertezas, medos e ódios começa o “segundo turno” da eleição de 2018, no RN e no Brasil.

Alguns admitem que seja nova eleição. Prefiro considerar como a continuação do primeiro turno.

Ganhará quem tenha a capacidade de atrair adesões de setores resistentes ao cenário de polarização.

Observou-se na primeira etapa do pleito, que muito mais do que ideias e propostas, as redes sociais influíram decisivamente nas preferencias do eleitorado, somado ao sentimento de rejeição, que se sobrepôs a adesão ao candidato.

Os capitães Bolsonaro e Stevenson (RN) são exemplos, de que pouco valeu o tempo de propaganda no rádio e TV. Ambos foram beneficiários do clima emocional e rejeição à classe política, colocada como vilã de todos os males nacionais.

No Rio Grande do Norte, Fátima e Carlos Eduardo somaram no primeiro turno 1.274.083 sufrágios (79%), calculado sobre 1.620.544 votos válidos no primeiro turno, excluídos abstenção (406.098), brancos (86.111) e nulos (259.795), o que correspondeu a 54% do total do eleitorado apto a votar no estado (2.372.548).

Considerando esse computo geral do eleitorado, 1.098.465 eleitores (46%) não votaram em Carlos, nem em Fátima. As estatísticas mostram, que cerca de três quartos dos eleitores votantes na primeira rodada reafirmam o voto anterior.

Portanto, com base no resultado oficial do primeiro turno, para ultrapassar Fátima Bezerra, o candidato Carlos Eduardo teria que acrescentar aos seus 525.933 mil votos, mais de 222.217 mil votos, a serem conquistados entre aqueles sufrágios dados à candidatos que não ficaram para o segundo turno (346.461), além dos brancos, nulos e abstenção.

Na disputa presidencial, Haddad teve 31 milhões de votos. Em tese, para que ele ultrapasse Bolsonaro terão que ser acrescidos mais de 24 milhões de eleitores.

Note-se que cerca de 40 milhões se abstiveram, votaram em branco ou anularam o voto, além dos 27,6 milhões que sufragaram outros nomes, que agora estão de fora.

A conclusão é que 67,6 milhões de brasileiros definirão quem será o novo presidente brasileiro.

Ciro Gomes responde sozinho por 43% dos 87% de eleitores que não votaram nem no PSL, nem PT, no primeiro turno. Mesmo admitindo que Ciro transferisse 100% dos votos (o que é impossível), Haddad ainda necessitaria de 11 milhões de votos entre os adeptos dos demais candidatos, que obviamente poderão migrar também para Bolsonaro.

Pelo visto, o segundo turno presidencial será mais um plebiscito, do que eleição. A democracia brasileira está ferida e a nação necessita eleger alguém capaz de tornar-se um estadista.

Em clima de intensa emoção e radicalização, corre grave risco a estabilidade democrática do país e de suas instituições.

O sentimento nacional é de descrença na política, em função de escândalos de corrupção e aumento da violência, o que leva ao surgimento notório de alternativas autoritárias para a crise.

No impeachment de Dilma já se percebiam grupos favoráveis à intervenção militar, o que se tornou público, após a greve nacional de caminhoneiros. Essa tendência não prevaleceu pela firmeza democrática das Forças Armadas, salvo grupos isolados que foram contidos.

A preocupação “pós segundo turno” é que o vitorioso tenha a grandeza de buscar o diálogo, a paz social e o consenso, que possam unir o país, sem discriminação de pessoas, ou partidos.

Infelizmente, percebem-se correntes ativas no processo eleitoral, ávidos de poder despótico, que consideram mero “blá blá blá” tais preocupações e fazem até zombaria dos valores da democracia, considerando-os inúteis e ineficazes.

Diante de tamanho risco, o STF já propõe que seja firmado um “pacto republicano” com o futuro Presidente, seja ele quem for, para garantir a governabilidade democrática.

Esse “pacto”, a exemplo de “Moncloa” na Espanha e “Consertácion” no Chile, teria como objetivo a justiça social, a equidade, a superação da pobreza, a integração regional, a plena vigência da democracia.

Não há como negar, em função da história de outros países livres, que a mediação nacional terá que ser exercida pela classe política, ungida pelo voto popular.

Fora desse caminho restará apenas a força, a violência e o caos iminente, cujos mais atingidos serão fatalmente a cidadania e a economia.

Ney Lopes
– jornalista, ex-deputado federal, ex-presidente do Parlamento Latino-Americano e advogado – nl@neylopes.com.br

Artigo Ney Lopes: “7 de outubro: “Dia D” da Democracia”

Ney Lopes- jornalista, advogado, professor de Direito Constitucional – nl@neylopes.com.br – www.blogdoneylopes.com.br

Quando presidi o Parlamento Latino Americano (instituição internacional referendada por tratados dos países latino-americanos, no modelo do Parlamento Europeu) tive experiência próxima com o Instituto Latino Barômetro, uma ONG, sediada no Chile, responsável por pesquisas aplicadas anualmente na política e economia, em 18 países da América Latina.

No último relatório (outubro de 2017), o Brasil é o segundo com maior descrença na democracia, à frente apenas da Guatemala.

A chilena Marta Lagos, uma das responsáveis pela pesquisa, afirmou que há países sofrendo de “diabete democrática”, com sintomas lentos e invisíveis, que se não forem tratados a tempo, “matarão” essas democracias, diante do perigo do

“voto popular” referendar o uso da força, premiando o radicalismo de direita, ou de esquerda.

O caminho do autoritarismo não deu certo em nenhum lugar do mundo.

O fenômeno inverte as tendências históricas.

Se antes, as democracias eram derrubadas por pelotões armados, a estratégia atual é asfixiá-las, através da imposição de “regras prévias” para “vigiar e tutelar” a voz das urnas.

Assim foram os “desastres” eleitorais de Chávez (hoje Maduro) na Venezuela, Putin na Rússia, Viktor Orbán na Hungria, Erdogan na Turquia (Partido Justiça e Desenvolvimento), Rodrigo Duterte nas Filipinas, Fujimori no Peru, Rafael Correa no Equador, na Polônia partido de direita, ultraconservador “Lei e Justiça (PiS)”, Anastasio Somoza na Nicarágua, Evo Morales, na Bolívia e outros.

A Alemanha, no início do século XX, devastada por grave crise (semelhante ao Brasil atual), optou por delegar a uma comissão de notáveis, liderada pelo jurista Hugo Preuss, a elaboração do projeto de Constituição, que não conteve a insatisfação social.

Em 1933, o voto popular dos “inocentes úteis” levou os nazistas ao poder.
Na Itália, não foi diferente.

O país vivia grave crise e Benito Mussolini, aos 38 anos de idade elege-se deputado, pelo voto popular (1921). Logo criou e comandou os chamados “camisas negras”, que pregavam o salvacionismo da pátria, ações messiânicas e impactantes de moralização, anticorrupção e antiviolência.

Após a chamada “Marcha sobre Roma” (1922), ele ocupa o cargo de primeiro ministro, em decorrência de ameaças, que anunciaram um ataque militar, caso o rei Vitor Emanuel III não o indicasse. O monarca acuado, cedeu.

Numa véspera de Natal, Mussolini usou os poderes discricionários e mudou o título de “presidente do Conselho de Ministros” para “chefe do governo”. Criou para si a patente de “Primeiro Marechal do Império” (antes foi sargento na I Guerra Mundial). Começa aí a implantação do seu projeto político fascista na Itália, que “deu no que deu”.

Fatos históricos “abrem o olho” do eleitor brasileiro, para que o espaço eleitoral de 2018 seja usado na “consolidação da nossa democracia”.

Churchill disse, que a democracia tem defeitos, mas ainda é a melhor forma de governo experimentada na história. Não se nega que o sistema brasileiro está desgastado, precisa de reformas e mudanças que o regenerem, erradicando a corrupção e os desmandos.

Todavia, não será a “força discricionária” que mudará esse quadro.

Ao contrário aumentará tensões.

Existem exemplos históricos, indicando caminhos pela via política e não autoritária, sem o sacrifício das liberdades: os pactos de “Moncloa” (Espanha) e “Concertácion” (Chile), firmados em defesa da governabilidade democrática.

O Pacto de Moncloa (Espanha-1977) transformou-se em “consenso histórico” sobre as reformas inadiáveis.

No Chile (1988), após a ditadura de Pinochet, foi construída a coalizão política denominada “Concertación”, que conduziu o país à integração nos processos de globalização mundial.

Não houve adesões, nem fisiologismos. Apenas, grupos políticos antagônicos sentaram-se em torno de uma mesa e definiram o que é interesse nacional, incluindo a garantia da economia de mercado, concorrência e incentivos.

Nos sistemas totalitários citados neste artigo, a primeira medida foi a intervenção estatal na economia privada.

Somente a luta pela Democracia, sem concessões, conduzirá nossa Nação à paz social. Espera-se que ao final da eleição prevaleça o resultado das urnas, seja lá qual for e por mais desagradável que pareça.

Outra alternativa significaria mais uma experiência autoritária ruinosa.

Por tais motivos, 7 de outubro próximo será o “Dia D” da Democracia brasileira, assemelhando-se ao feito histórico do desembarque aliado na Normandia, que pôs fim a II Guerra e preservou as liberdades no mundo.

Artigo Ney Lopes: “Pesquisas & eleição no RN e no Brasil”

Ney Lopes – jornalista, advogado, ex-deputado federal; ex-presidente do Parlamento Latino-Americano– nl@neylopes.com.br – blogdoneylopes.com.br

A divulgação de pesquisas é o momento mais torturante para os candidatos.

Cientificamente, a pesquisa é válida. Entretanto, em período eleitoral exige-se muita cautela para identificar os institutos idôneos e aqueles que “manipulam resultados” para inflar, ou destruir candidaturas.

Em eleição majoritária convivi com pesquisas em 2004, quando fui candidato a prefeito de Natal, RN, de “última hora”, para atender apelo do meu partido. À época tinha altíssimas chances de ser escolhido pela Câmara Federal Ministro do TCU, com o nome já aprovado nas comissões.

A cúpula do partido (então PFL) no RN fez apelo dramático e prometeu que, se perdesse a disputa de prefeito, estaria confirmada na eleição seguinte a minha candidatura ao Senado, um velho sonho. Acreditei, renunciei ao TCU e aceitei o desafio.

Um instituto de pesquisa me procurou e pediu valor em dinheiro para colocar o meu nome como favorito. Recusei.

No final, perdi a eleição e o compromisso da indicação partidária para o senado não foi cumprido.

Na tumultuada eleição de 2018 assiste-se com frequência a “dança” das pesquisas, que não é fotografia estática, mas sim filmagem ao vivo, dinâmica.

Na eleição de governador e senador no Rio Grande do Norte, os dados disponíveis nas pesquisas antecipam o segundo turno.

Um fato apenas deve ser considerado. A pulverização de votos (brancos e nulos) reduz o percentual de votos válidos e pode favorecer o candidato que está na liderança.

A prioridade dos oponentes de Fátima Bezerra deverá ser, portanto, levar o eleitor à urna.

Na disputa do Senado, tudo aponta para uma taxa de brancos e nulos maior do que nas últimas eleições estaduais, pelo fato dos eleitores não se sentirem contemplados, com os nomes apresentados pelos partidos.

O segundo turno no Estado sofrerá grande influência da eleição presidencial. Ciro ou Haddad na disputa poderão fortalecer Carlos Eduardo, ou Fátima, embora seja provável a aliança do PDT com PT.

Outra hipótese seriam os partidos de centro-direita, hoje comprometidos com a reeleição de Robinson Faria, migrarem para Carlos Eduardo, em razão do antipetismo.

Nesse caso prevaleceria o voto estratégico.

Mesmo assim, o resultado final da eleição estadual é imprevisível, salvo mudanças na reta final. Tudo poderá acontecer.

Na disputa presidencial vale lembrar que em 2014, duas semanas antes das eleições presidenciais, Marina Silva tinha 37% das intenções de voto, Aécio tinha 14%. Abertas as urnas, Marina não foi nem para o segundo turno.

No Rio Grande do Norte dois exemplos: em 2010, na disputa pelo senado, o empresário Fernando Bezerra era favorito absoluto nas pesquisas.

A atual prefeita de Mossoró, RN, Rosalba Ciarlini ganhou a eleição. Em 2014, o então deputado Henrique Alves chegou a liderar pesquisas, pela ampla margem de 40%. Terminou derrotado.

As eleições majoritárias no Brasil, desde 1994, foram disputadas entre PT e antiPT, o que se repete em 2018.

Faltando 18 dias para a votação, Bolsonaro se consolida na liderança e irá para segundo turno.

A pesquisa do Ibope divulgada nesta segunda feira coloca Jair Bolsonaro com 28% das intenções de votos, seguido de Fernando Haddad (PT), com 19%, Ciro Gomes (PDT), com 11%, Geraldo Alckmin (PSDB): 7% e Marina Silva (Rede): 6%.

Os números, até agora, demonstram que não parece viável a “carona” sonhada por Alckmin, de que a rejeição a Bolsonaro leve os antipetistas a apoiá-lo (voto útil), na reta final da campanha.

Outra vertente do “voto útil”, para evitar Haddad no segundo turno, consistiria nos eleitores que rejeitam Bolsonaro serem convencidos de que o petista é quem tem menos chance de vencer o candidato da direita, num segundo turno. Nesse caso, Ciro cresceria.

Nos últimos dias, Bolsonaro enfrenta desgastes, em razão das declarações do seu vice-presidente.

Agravou-se com a informação de que, Paulo Guedes, (o seu “guru econômico) foi apontado pela Justiça como um dos beneficiários de fraude que causou prejuízos à fundação responsável pela gestão da aposentadoria dos funcionários do BNDES, arranhando o discurso anticorrupção do candidato.

Por outro lado, o economista Pérsio Árida, de renome internacional, declarou à Folha, que Paulo Guedes é mitômano, nunca escreveu artigo acadêmico de relevo e jamais dedicou um minuto à vida pública, sem nenhuma experiência. Ademais é ultra privatista e defensor ferrenho da desmontagem do serviço público e do estado.

Nesse “vai e vem” de probabilidades eleitorais, a grande preocupação é a alta parcela de indecisos.

Na resposta espontânea das pesquisas, 32% não sabem em quem votar. Dos que optam pelo voto nulo ou branco, 61% dizem que não mudarão de opinião. Um grande risco, em relação à legitimidade dos eleitos.

Em qualquer hipótese, o desfecho da eleição presidencial parece girar em torno de Bolsonaro e Haddad (Ciro é o único que ainda ameaça chegar ao segundo turno).

Definição já no primeiro turno, não é previsível. Qualquer prognóstico de vitória no segundo turno torna-se absolutamente impossível.

Muita água ainda irá correr, em baixo da ponte!

Artigo – Ney Lopes: “O atentado mudará a eleição?”

O atentado de Juiz de Fora transformou em mártires dois candidatos: Bolsonaro, no hospital e Lula, na prisão. A consequência é a polarização do debate eleitoral em torno de “pró e anti PT”, ao invés da polêmica ausência do ex-presidente na eleição.

A divisão do Brasil entre “nós” e “eles” teve início desde o “Fora FHC”, liderado pelo PT, causando instabilidade à governabilidade. Os choques começaram em 2005 (mensalão) e em 2013, com os “black blocks” e “manifestações de rua”.

Prosseguiram em 2014, com o questionamento dos resultados e o impeachment em 2016. Tais sinais de exacerbação política geraram, em março passado, “os tiros” contra a comitiva do ex-presidente Lula da Silva, cujas investigações estão inconclusas.

O grande beneficiário dessa polarização, agravada com o aumento crescente da violência urbana, foi o deputado Jair Bolsonaro Ele surgiu e entrou em cena, dizendo o que o povo quer ouvir.

Em tais circunstâncias, certo percentual do eleitorado deixa de refletir sobre a verdadeira função de um Presidente da República e raciocina pela lógica do “messianismo”, buscando candidato “útil e estratégico”, que salve a nação da catástrofe e erradique a violência.

No primeiro momento da lamentável tragédia de Juiz de Fora, um dos filhos de Bolsonaro usou politicamente o ocorrido, ao declarar: “acabaram de eleger um presidente”.

Ele esqueceu a hipótese do seu pai ter sido vítima do barril de pólvora que apregoa na campanha, além da “retórica de risco”, cujos exemplos são o comportamento com as mulheres, a indagação feita a uma criança – você sabe atirar? Sabe dar tiro? – e a disposição de “fuzilar a petralhada”.

O psicanalista Christian Dunker, da USP, interpreta que o discurso político violento estimula as armas, as paixões de ódio e fascinação, desequilíbrios, transtornos, opressões, atraindo pessoas para atitudes extremas. Margareth Thatcher dizia que é preciso ter cuidado com o que se diz, porque a palavra vira ato.

As últimas pesquisas apontam que o atentado não mudará a eleição. Muito pouco o crescimento de Bolsonaro, de 22 para 24 por cento (margem de erro).

A rejeição sobe de 39 para 43%, perdendo em todas as simulações no segundo turno. Esses fatos preocupam os seus correligionários, que já procuraram o famoso marqueteiro americano Arick Wierson, cuja recomendação é Bolsonaro abandonar o discurso agressivo e escrever, do leito do hospital, uma carta à Nação, deixando claro que apoia a democracia e não levará ao Planalto uma agenda racista e homofóbica.

Algo parecido com o que Lula fez em 2002 (“paz e amor”).

A proposta encontra resistência, no grupo do general Mourão.

Outra consequência das pesquisas recentes é a certeza do segundo turno, com Bolsonaro presente. Os seus adversários prováveis seriam Haddad (Lula “bateu o martelo” e o lançou candidato, acreditando nos benefícios da passionalidade pela sua ausência), ou Ciro Gomes, que mostra um discurso competente e atrai segmentos do centro, com propostas objetivas. Marina Silva cai nas pesquisas.

Ela não se posicionou contra a prisão de Lula e o apoio à Aécio Neves em 2014 causou-lhe desvantagens.

Em cenário turbulento, o mais prejudicado será Alckmin entregue ao “centrão” e ao “mercado” (46% apostou nele), que já “pularam fora do barco”, confirmando a “fidelidade histórica” somente aos governos, como aconteceu com Lula, Dilma e outros que virão. O tucano poderia ter “focado” o eleitorado anti-Lula.

Ao atingir Bolsonaro, não sensibilizou bolsonaristas, nem esquerda. Até Amoedo “tira” votos de Alckmin

Na história do mundo há exemplos de tragédias às vésperas de eleições decisivas, que nada influíram no resultado final. A deputada britânica Jo Cox, em 2016, favorável à permanência da Inglaterra na União Europeia, sofreu atentado e morreu, uma semana antes do plebiscito (Brexit).

Os ingleses saíram do bloco europeu. Dias antes do referendo sueco sobre a adesão à zona do euro, a ministra do Exterior Anna Lindh foi morta em atentado. Ela defendia o “Sim” e os suecos votaram “Não”.

Diante de tantas incertezas, talvez prevaleça no pleito de 2018, o “voto da exclusão” (o menos ruim).

Nesse caso, o jornalista Elio Gaspari teria razão ao escrever, que “quando o voto de exclusão supera o de preferência, consegue-se barrar aquilo que não se quer, mas não se elege um presidente”.

Ney Lopes – jornalista, advogado, ex-deputado federal; ex-presidente do Parlamento Latino-Americano, procurador federal – nl@neylopes.com.br – blogdoneylopes.com.br

Artigo de Ney Lopes: “Qual será o rumo do eleitor?”

Começou o processo eleitoral de 2018. No ar a indagação: o que estará na “cabeça” do eleitor?

Nunca o país assistiu uma eleição com a previsão de tantas incertezas, desânimo e temores. No RN, as últimas pesquisas mostram a previsão de dois terços do eleitorado ausente das urnas, nas eleições de governador e senador.

No Brasil, o número de eleitores “saltou”, em 73 anos, de cerca de 7 milhões em 1945, para quase 150 milhões em 2018 (20 vezes mais).

O maior índice de abstenção, nulo e branco ocorreu na eleição de JK em 1955 (43.41%), quase a metade dos votantes. Analistas políticos admitem que o ano de 2018 vá além de 1955.

Pela primeira vez, os brasileiros votarão, após o “tsunami” da Lavajato, que desnudou o comportamento de parte das classes política e empresarial, beneficiárias de gigantesco esquema de malversação de dinheiro público.

Igualmente, serão as primeiras eleições após o impeachment de 2016 e a ascensão do governo Temer, o mais impopular da nossa história, em cujo saldo constam mais de 14 milhões de desempregados e o recrudescimento da violência, com o índice de mais de 63 mil homicídios anuais.

Acrescente-se, ainda, a prisão do ex-presidente Lula, eterno candidato, bem situado nas pesquisas, embora alcance mais de 50% de rejeição popular.

Nesse contexto, o que estará pensando o eleitor?

As primeiras sondagens nacionais mostram a tendência de cerca de 60% dos cidadãos com direito a voto, não sabendo se irão às urnas. Esquerda, centro e direita se apresentam com a marca da rejeição da sociedade, pelos indícios da corrupção e do radicalismo exacerbado, que coloca em risco a própria estabilidade institucional do país.

Salvo mudanças no transcurso da campanha, vive-se hoje a sensação coletiva da dor e do caos, que estimula discursos messiânicos, raivosos e elitistas (transformando as pessoas em números estatísticos do mercado), recheados de promessas mágicas, ou pregação da força bruta, com o notório oportunismo de candidatos “pegando carona” no desgaste da classe política, combate a corrupção e a violência, sem a preservação dos laços da convivência civilizada da nação.

Outro aspecto relevante a considerar será a indispensável “representatividade” do eleito, para executar as mudanças.

Nas 11 eleições, desde 1945, o maior percentual alcançado foi de Eurico Gaspar Dutra, que obteve mais de 40% dos eleitores aptos a votar. JK teve apenas 20% dos votos. Nas eleições gerais brasileiras, a média de representatividade (1945-2014) é de 33%, ou seja, apenas uma terça parte. Estatísticos admitem que em 2018, se for repetida a abstenção de 1955 (JK), os votos válidos serão pouco mais de 85 milhões, permitindo que um candidato seja eleito com pequena “representatividade” em relação ao eleitorado inscrito.

Neste cenário, a partir de 30 milhões de votos já poderia haver vencedor do pleito.

Se colocada em debate à eleição proporcional, a previsão é de baixíssimo índice de renovação (talvez menor do que 49% das últimas cinco eleições).

Prevalecerão as “bases eleitorais”, azeitadas por uma legislação casuística e criminosa, que fez “vista grossa” ao uso do dinheiro público na distribuição de moeda sonante, ambulâncias, carro de polícia e outras dádivas, às vésperas da eleição.

A lei aprovada no Congresso travou a renovação legislativa e teve o endereço certo de garantir a “reeleição” dos atuais detentores de mandatos.

O fundo eleitoral, com mais de 2 bilhões de reais, é um “caixa privado” dos “donos dos partidos”, sem critérios e fiscalização. Como se não bastasse, no RN cada parlamentar federal recebeu 60 milhões de reais de emendas impositivas, todas elas com o dinheiro “já depositado” no cofre dos beneficiários, além de “verbas extras”, generosamente concedidas pelo presidente Temer para “barrar” o processo crime, que tramita no STF.

Em cenário devastado por essas práticas de “cooptação legalizada” pode-se falar em chances na renovação dos métodos de ação política?

Com tais sinalizações e evidências, qual o “rumo” do eleitor?

É impossível prever.

A pior alternativa será ele ausentar-se das urnas. Assim agindo, favorecerá que a desesperança seja, irreversivelmente, convertida em pesadelo.

Artigo Ney Lopes: A previsão é de “salve-se quem puder!”

Foi dado o “ponta pé” inicial da “corrida” presidencial, com os debates televisivos.

Cedo para previsões.

Apenas, análise isenta, tendências e construção de cenários.

Amanhã, 16, começa a campanha nas ruas, comícios, carreatas e propaganda na internet, desde que não seja paga. Horário eleitoral na TV e no rádio só no dia 31 de agosto

Realça a insistência do PT com a candidatura de Lula.

O petismo esgotará todos os recursos judiciais para substituir Lula pelo seu vice, Fernando Haddad.

A estratégia é transformar decisões jurídicas adversas em benefícios eleitorais, alegando perseguição política e não haver mais tempo de retirada da foto de Lula da urna eletrônica.

Soa mal para os leigos em direito eleitoral a hipótese de Lula poder candidatar-se. Entretanto, a Lei das Eleições garante ao candidato cujo registro ainda esteja pendente de confirmação judicial, o direito de “efetuar todos os atos relativos à campanha eleitoral, inclusive utilizar o horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão e ter seu nome mantido na urna eletrônica enquanto estiver sob essa condição”.

Essa hipótese ganhou destaque, pelo fato de aplicar-se a um ex-presidente da República, embora desde o ano 2000, oito candidatos presos tenham sido eleitos.

Em 2018, não se sabe como agirá a justiça eleitoral.

Outra indagação: os primeiros debates ajudaram a definição dos indecisos? Certamente, não.

A cautela e a moderação prevaleceram entre os candidatos.

Observou-se no debate da Band, que os principais “alvos” nas perguntas foram Alckmin e Bolsonaro. Admite-se o temor dos demais candidatos, de que os dois caminhem para o segundo turno.

Um terceiro, também em condições de segundo turno, seria Ciro Gomes, pelo poder de argumentação e conhecimentos demonstrados.

Por isso preferiram isolá-lo, o que já começou com o PT e PSB afastando-se do PDT.

Bolsonaro representa a polarização da extrema direita, com o discurso vigoroso de combate à violência, tema que aglutina o eleitorado.

Na largada parecia inadmissível a sua candidatura. Hoje é uma realidade, em crescimento.

Alckmin simboliza o “centrão”, cuja característica é não ter ideologia, nem convicções, mas apenas “interesses”.

Quem melhor aproveitou o espaço no debate da BAND foi Ciro Gomes, com a proposta de retirar devedores do SPC e recriar consumidores, aquecendo a economia. Sem dúvida, uma “luz” que poderá galvanizar simpatias.

Alckmin “pisou na bola” ao mostrar-se favorável a eliminação da gratuidade universitária.

Álvaro Dias parece meio perdido; Marina Silva repete o que já dizia em campanhas anteriores, sem demonstrar convicção; Henrique Meirelles não consegue apresentar-se como a melhor solução para a crise da economia; Cabo Daciolo e Guilherme Boulos “patinam” em teses populistas.

E o segundo turno?

Sabe-se que a corrida presidencial é curtíssima.

A maioria dos candidatos irá dispor de “migalhas” de tempo no horário gratuito, salvo Alckmin que usará 44% dos minutos de TV e receberá 48% do total do fundo público de campanha.

Mesmo assim, o carisma do ex-governador paulista, segundo José Simão da Folha, assemelha-se a “canja” de hospital.

Percebe-se que a polarização não é entre esquerda e direita, mas sim petistas e anti-petistas.

Se Alckmin não “vingar”, talvez a “surpresa” seja Haddad e/ou Ciro, disputando com Bolsonaro, o segundo turno.

Pesquisa da Datafolha registra que 30% dos eleitores afirmaram votar “com certeza” em um candidato indicado por Lula, enquanto 51% “não votariam jamais” e 17% votariam “talvez”.

Haddad tentará agregar a “herança do petismo”, inspirar confiança ao eleitor indeciso pela sua formação acadêmica e ser votado com a foto de Lula na urna eletrônica (caso não haja tempo de substituir).

Ciro dependerá de superar o isolamento que lhe é imposto, com apenas segundos na TV e rádio. Bolsonaro poderá ocupar o espaço do PSDB no antipetismo.

Como ele tem “simpatias”, mas não tem “apoios”, torna provável na “reta final” beneficiar-se do pragmatismo do “centrão”, cujo objetivo será chegar à antessala dos governos e não correrá riscos com Alckmin.

Em qualquer das hipóteses, o país estará dividido pós-eleição, dificultando a governabilidade.

É o caso de prever: salve-se quem puder!

Ney Lopes – jornalista, advogado, ex-deputado federal; ex-presidente do Parlamento Latino-Americano, procurador federal – nl@neylopes.com.br – blogdoneylopes.com.br

Artigo Ney Lopes: Onde andam os congressistas do RN?

Há anos chamo atenção da classe política do RN, em relação à vocação natural do nosso estado para sediar uma área de livre comércio.

Somos o ponto geográfico mais estratégico das Américas, pela proximidade com a África e a Europa.

No passado, essa condição pesou para instalação, durante a II Guerra Mundial, de uma base militar estratégica, a maior já montada fora dos Estados Unidos.

Aquela época eram objetivos militares.

No século XXI, seriam objetivos econômicos, transformando o RN num polo exportador e turístico.

Nenhuma providência foi jamais tomada.

Prevaleceram sempre no RN a mediocridade e a defesa intransigente unicamente de interesses de grupos privados, na busca ávida de lucros pessoais.

Uma área de livre comércio seria impessoal.

Teriam oportunidades àqueles que fossem melhores e mais competitivos, como acontece no mundo todo.

O Ceará avançou à nossa frente e já se interligou com a África, abrindo caminho para a sua área de livre comércio.

A South Atlantic Cable System instalou-se em Fortaleza e é a primeira rede de cabos submarinos de fibra óptica que ligará o continente africano diretamente ao Brasil.

Dessa forma, o Ceará estreita as relações comerciais estratégicas entre a África e as Américas.

Agora está sendo a vez do Maranhão, que faz a mesma coisa, voltando-se para a instalação de um polo exportador e turístico em seu território.

Convida até a Guararapes, hoje instalada em Extremoz, RN, para transferir-se e beneficiar-se de incentivos para a exportação.

A Comissão de Constituição e Justiça aprovou relatório do senador Edison Lobão que cria uma área de livre comércio no Maranhão.

A proposta estabelece uma área de livre comércio com o exterior na Ilha de Upaon-Açu, que abriga a capital, São Luís, e cidades da zona metropolitana, como São José de Ribamar.

Pelo projeto as empresas que se instalarem na ALC maranhense terão isenção de impostos e contribuições incidentes sobre a importação ou sobre aquisições no mercado interno de insumos, para que possam produzir mercadorias ou prestar serviços destinados à exportação.

Somente as empresas enquadradas na seção “indústrias de transformação” da Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) poderão usufruir dos incentivos fiscais e terão condições menos burocráticas relativas ao controle aduaneiro e dispensa da exigência de percentual mínimo de receita bruta relacionada à exportação de bens e serviços.

O Maranhão defende um regramento especial, aplicado ao estado, criando condições para que a sua ALC tenha mais chance de ser instalada com sucesso.

Enquanto isso, o RN continua com o “dedo na boca”, como o “bobo” da Corte.

Afinal, onde andam os congressistas do nosso estado, que continuam imobilizados e nada fazem para recuperar o tempo perdido?

Ney Lopes – jornalista, advogado, ex-deputado federal; ex-presidente do Parlamento Latino-Americano, procurador federal – nl@neylopes.com.br – www.blogdoneylopes.com.br