BC intervém, mas dólar sobe para R$ 5,74, um dos maiores patamares desde março

Foto: Marcello Casal Jr Agência Brasil

O Banco Central realizou um novo leilão de dólar à vista, ontem, ofertando US$ 500 milhões, mas a medida não mudou a tendência de valorização da moeda norte-americana, que voltou a ficar acima de R$ 5,70 nesta semana, nos maiores patamares desde março deste ano.

O leilão não estava programado, e foi comunicado pelo BC às instituições financeiras após o fechamento dos mercados, na segunda-feira. Ao longo do dia, o dólar oscilou bastante, ao sabor dos ventos polêmicos da votação do Orçamento de 2022, e alcançou o pico de R$ 5,75 por várias vezes, o maior nível nominal desde 31 de março. No fim do pregão, a divisa foi cotada a R$ 5,739, com queda de 0,07% em relação à véspera.

De acordo com especialistas, o volume de remessas de lucros de empresas com sede no exterior costuma ser maior nessa época, mas os volumes das ofertas do BC são considerados baixos e de pouco efeito na tendência ou no estoque de reservas do país. De fevereiro até agora, os leilões do BC no mercado à vista somaram US$ 10,2 bilhões. Enquanto isso, as reservas internacionais em moeda estrangeira da autoridade monetária estavam em US$ 364,227 bilhões no último dia 17. O montante é US$ 5,566 bilhões inferior ao patamar do fim de novembro e US$ 10,5 bilhões menor do que os US$ 374,715 bilhões contabilizados em 31 de dezembro de 2018, ou seja, no início do governo Bolsonaro (PL).

Na avaliação de Eduardo Velho, economista-chefe da JF Trust Gestora de Recursos, o BC tem dado sinais de que pode interferir toda vez que o dólar começa a ficar perto de R$ 5,80. “O Banco Central mantém a estratégia de rolar os contratos de swap cambial e intervir pouco no mercado. Mas, desde o ano passado, quando houve turbulências em relação ao Orçamento deste ano, o BC partiu para o leilão de linha sempre que o dólar ficou perto de R$ 5,80 e mostrou uma tendência de valorização mais acentuada”, disse. “O BC está sendo prudente, mas parece que tem um nível de câmbio que provoca uma atuação mais intensa”, acrescentou.

Velho lembrou que a piora do cenário externo, por conta da variante ômicron do novo coronavírus e da mudança da política monetária dos bancos centrais dos países desenvolvidos, principalmente dos Estados Unidos, tende a manter o dólar mais valorizado em 2022. “O dólar tem subido nos últimos dias devido ao aumento da demanda por hedge (proteção) dos agentes financeiros e dos exportadores, que tende a crescer diante da expectativa de maior desvalorização do real. Além disso, há o fluxo desfavorável das remessas de lucro que sempre ocorrem no fim do ano.”

Os analistas avaliam que o dólar continuará valorizado, em grande parte, por causa da piora do quadro fiscal esperada a partir do próximo ano. Enquanto o Congresso aprovava um Orçamento com R$ 16,5 bilhões para as polêmicas emendas do relator — vistas como o Mensalão do atual governo —, com reajuste para policiais e quase R$ 4,9 bilhões no fundão eleitoral, o ministro da Economia, Paulo Guedes, tirava férias, para só retornar ao gabinete em 7 de janeiro.

“Há muita incerteza nos mercados, e o cenário é de piora nos fundamentos macroeconômicos e da questão fiscal. Por isso, não vejo o dólar voltando a cair para menos de R$ 5,60”, destacou Velho. “Tenho conversado com vários economistas e o consenso é de que o dólar deveria estar entre R$ 4,30 e R$ 4,80, mas o câmbio atual é resultado da piora na percepção da qualidade do governo. O fiscal atrapalha, mas não é só isso. O saldo é muito ruim, porque as reformas pararam na da Previdência. A do Imposto de Renda não andou e a guerra fiscal continua. Os problemas crônicos do país não foram foram resolvidos e não se vislumbra uma reversão”, destacou o consultor Roberto Luis Troster, ex-economista-chefe da Federação Brasileira de Bancos (Febraban).

Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos, lembrou que o real não é a moeda emergente que mais tem se desvalorizado neste ano. A lira turca acumula mais de 40% de perdas, enquanto a moeda brasileira cai cerca de 10%. “O Banco Central tem deixado o câmbio mais livre. No ano passado, as intervenções ocorriam com mais força. Entendo que eles deixaram o câmbio se estabilizar em um patamar mais alto e esses leilões no fim do ano estão ocorrendo mais por fatores técnicos, devido às maiores remessas no fim do ano”, afirmou.

Com informações do Correio Braziliense

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