Artigo Ney Lopes: “Bolsonaro e a Copa América”

Ney Lopes – jornalista, advogado, ex-deputado federal – nl@neylopes.com.br

A radicalização política no Brasil tornou-se rotina.

Pedidos de CPI e de impeachment estão diariamente nos cardápios daqueles que buscam holofotes, para exibicionismos nas telas de TV, ou manchetes de jornais.

Receitas de medicamentos, ao invés de ficarem na órbita da ciência, passam a ser tema político, com prós e contras.

Cada um vira médico.

Agora, até o futebol é atingido pela política, após a opinião do presidente Bolsonaro, favorável à realização da Copa América no país e a automática mobilização dos seus contrários.

A propósito da Copa América, cabem algumas análises.

Não se pode negar, que estão em plena realização campeonatos brasileiros das diversas séries, Taça Libertadores da América, Sul-Americana Copa Brasil, jogos da seleção principal e olímpica e até os jogos Pan-Americanos de ginástica.

Por outo lado, seria inegável o protagonismo dos nossos estados e municípios nas Américas, com as transmissões dos eventos esportivos, o que ajudaria ao turismo, tão prejudicado pela pandemia global, colaborando na geração de empregos, ocupação de hotéis, restaurantes.

O argumento básico na defesa do evento é a obediência ao atual protocolo da CBF, elaborado com a participação de médicos infectologistas categorizados.

Haveria política de testagem dos jogadores e integrantes da comissão técnica.

Caso encontrada positividade, o infectado seria imediatamente afastado e isolado.

Não teria público nos estádios, os atletas sairiam dos estádios para o hotel.

Mesmo em tais circunstancias, Argentina e Colômbia recusaram-se a sediar a Copa.

A decisão da Copa no país foi pessoal do Presidente da República e não do ministério da saúde, ao qual compete assegurar os protocolos que sejam adequados e orientar as autoridades sanitárias dos municípios e estado no cumprimento das normas.

Todavia não se pode negar que o número de óbitos está elevado e isso decorre da gravidade da doença.

Note-se que essa gravidade não é privilégio do Brasil.

A Covid 19 pressionou sistemas de saúde muito mais avançados, como da Inglaterra, dos Estados Unidos, da Itália, da Espanha, Japão e outros.

O nosso sistema de saúde tem mais de 30 anos e se encontrava fragilizado, deficiências no pronto atendimento e UPAs carentes.

De repente, exigiram-se UTIs, ao lado de filas para a realização de cirurgia.

A visão não politizada do problema impõe o reconhecimento, que o nosso sistema responde como pode.

Entretanto, a politização do tema traz à tona até movimento de rebeldia dos atletas brasileiros, que reclamam a disputa do torneio, juntamente com as Eliminatórias, além do risco de exposição ao vírus, através dos contatos entre seleções estrangeiras.

Face as incertezas decorrentes da possibilidade de uma nova onda da Covid, o governo federal teria que raciocinar de acordo com o pensamento franciscano:

“Saber recuar em tempo faz parte da coragem e da prudência”.

Não se trataria de recuo humilhante.

Deve ser reconhecido, que o fato de apenas UM atleta, vindo em delegação estrangeira para a Copa América, ser infectado e transmitir o vírus em território brasileiro, o presidente Bolsonaro e o seu governo enfrentarão verdadeiro inferno astral, ou seja, possibilidades de turbulências políticas, que ainda podem ser evitadas, sobretudo numa véspera da eleição de 2022.

Em nada atingiria a autoridade do Presidente da República, ele ir a uma cadeia de rádio e TV e ponderar que a Copa América não seria realizada no país, considerados os fatos novos e que não desejaria colaborar para aumentar a tensão política e radicalizações.

Essa decisão traria para o presidente Bolsonaro e o Brasil, a benção da palavra do apostolo: “Quem está quieto, que se aquiete mais!”.

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