Artigo Ney Lopes: “Papa Francisco e a Campanha da Fraternidade”

Ney Lopes – jornalista, ex-deputado federal e advogado – nl@neylopes.com.br – www.blogdoneylopes.com.br

Na última quarta-feira de cinzas, o Papa Francisco dirigiu a tradicional mensagem de abertura da Campanha da Fraternidade, cujo tema reflete sobre a parábola do “Bom Samaritano”, com base no princípio “Fraternidade e Vida: dom e compromisso”.

A inspiração vem dos primórdios da Igreja. O apóstolo São Tiago foi enfático: “Meus irmãos, de que adianta alguém dizer que tem fé, quando não tem obras? (…) A fé, se não se traduz em ações, é morta em si mesma” (cf Tg 2,14-17).

Essa iniciativa evangelizadora nasceu em 1962, no chamado “Movimento de Natal”, liderado pelo então administrador apostólico de Natal, dom Eugênio de Araújo Sales, considerada até hoje, a experiência pastoral da Igreja Católica de maior extensão e profundidade, já realizada no Brasil.

O objetivo da Campanha era despertar o espírito de solidariedade comunitário, através da identificação de problemas concretos, que envolvem as pessoas, sugerindo alternativas de solução.

Ao lançar a “Campanha da Fraternidade” no RN, o pioneirismo de D. Eugenio Sales inspirou-se no Concílio Ecumênico Vaticano II. Tudo começou em Nísia Floresta (RN), na comunidade Timbó, a 35 quilômetros de Natal, com caminhadas a pé, de casa em casa, de rua em rua.

A finalidade era ajudar a comunidade pobre, com roupas, comida, utensílios domésticos e alfabetização, além de disseminar a mensagem de Deus.

Paralelamente eram recolhidas doações e o resultado comercializado numa feira, cuja renda tinha como finalidade a compra de colchões, redes, dentre outras coisas, para as famílias pobres espalhadas em treze comunidades do município de Nísia Floresta.

Gratifica-me recordar, que jovem (17 anos) acompanhei de perto a obstinação e firmeza de dom Eugênio Sales, na implantação da Campanha da Fraternidade. Á época trabalhava no jornal católico A ORDEM, cuja edição de 15 de fevereiro de 1964, tornou-se histórica.

A manchete de primeira página estampava: “Campanha da Fraternidade realiza-se, este ano, em todo o Brasil”. A semente de solidariedade, plantada em Nísia Floresta, alcançava o país inteiro, pela decisão da CNBB de torná-la nacional.

D. Eugenio reuniu no “Movimento de Natal” religiosos e leigos, que encarnavam o princípio bíblico, de que “há mais felicidade em dar, do que em receber”. Irmã Lúcia, cearense, vinda de Quixadá (CE) e pertencente a congregação “filhas da caridade de São Vicente de Paulo”, foi um desses dedicados colaboradores.

Ela fundou a Casa da Criança de Morro Branco para oferecer educação a meninos de rua. Propôs em Natal, a criação do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente e do Conselho Municipal de Assistência Social.

No bairro do Alecrim, em baixo de uma mangueira, Irmã Lúcia aplicou o tema da Campanha da Fraternidade, no ano de 1987 (“Quem acolhe o menor a mim acolhe”).

Em terreno vizinho ao Externato Dom Marcolino Dantas, ela assentou os alicerces da “Casa do Menor Trabalhador”, que até hoje profissionaliza menores carentes.

Atualmente, a Campanha da Fraternidade Ecumênica promove a comunhão com outras igrejas cristãs, através do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic), que agrega as Igrejas Católica Apostólica Romana (ICAR), Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), Presbiteriana Unida (IPU), a Sirian Ortodoxa de Antioquia (ISOA) e a Aliança de Batistas do Brasil.

Neste ano de 2020, a Campanha da Fraternidade homenageia Santa Dulce dos Pobres e o Papa Francisco.

Na mensagem de abertura, o Pontífice citou Santa Dulce dos pobres como modelo para todos que veem a dor do próximo, sentem compaixão e cuidam.

A exaltação ao Papa Francisco vem numa hora própria, em razão de certos Torquemadas espalharem chispas de intolerância para atingi-lo e macular a sua imagem, apenas por ser fiel a lição do Evangelho de Lucas, que recomendou: “Jesus recebe pecadores e os convida à sua mesa”.

A propósito, Francisco completou, em homilia recente: “Deus salva com o amor, não com a força; propondo, não impondo”.

Hosanas para a nossa Irmã Dulce dos pobres! Paz e muitos anos de vida para o Papa Francisco!

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