Artigo Ney Lopes: “Política nacional: radicalismo, ideologias e doutrinas

Ney Lopes – jornalista, ex-deputado federal e advogado – nl@neylopes.com.br – www.blogdoneylopes.com.br

Esquerdista, vermelhinho, lulista, comunista, bolsonarista, direitista, conservador, nazista. Tais epítetos recheiam o clima de radicalização política do Brasil.

Propagam-se como fogo na palha os sentimentos da intolerância, preconceito, ódio e intransigência. O bom senso é jogado na lata do lixo.

Abrem-se espaços para propostas totalitárias, incrivelmente sugeridas em nome da liberdade e até com a inaceitável justificativa, de que seriam para salvar a própria democracia (??).

O ex-presidente Lula, na última Convenção do PT, verborrágico e disparatado, soltou a frase infeliz, de que “um pouco de radicalismo faz bem à nossa alma” (!!!).

Análise sócio-política identifica como presumida causa do radicalismo, o confronto dos conceitos de “ideologia” e “doutrina” política. A “ideologia” transforma ideias em dogmas inflexíveis (crenças e valores). Já a “doutrina política” fundamenta-se em princípios, preceitos ou pressupostos, logicamente articulados, considerados universais, que definem as regras pela qual uma sociedade civilizada deve orientar-se.

Regra geral, os “ideólogos” desprezam as “doutrinas”. O maior exemplo é o choque entre a “doutrina” liberal social e as “ideologias” inspiradoras dos extremismos de direita e esquerda.

Aliás, essas duas últimas denominações, após a queda do muro de Berlim (1989), não expressam a diversidade das questões sociais, que dependem do tempo e situações específicas.

O Professor Kenneth Minogue, da London School of Economics, fez a distinção entre ideologia e doutrina: “As “ideologias”, em contraste com as “doutrinas” políticas, reivindicam uma verdade exclusiva”. Os seguidores de “ideologias” intolerantes e radicais rejeitam o diálogo democrático.

Tais comportamentos são herdados de regimes comunistas, fascistas, nazistas e ditaduras de vários matizes. Nenhum desses regimes deixa de falar em democracia, apenas como pretexto e pano de fundo para justificar o uso do arbítrio e da força.

Cabe citar que a “doutrina liberal social” teve participação essencial em conquistas fundamentais no campo da legislação dos direitos individuais, direitos humanos e trabalhista, além de políticas tributárias, como por exemplo, a criação do imposto de renda, a jornada de trabalho e o incentivo à organização sindical.

O liberalismo social é uma preocupação de caráter universal, que cultua a liberdade em função do bem comum, luta contra privilégios, discriminações e a exclusão social, sendo incompatível com quem “sacraliza” o dinheiro, ou o autoritarismo. Como todas as demais doutrinas políticas e econômicas, o liberalismo sofreu distorções, ao longo do tempo.

O maior exemplo foi o Consenso de Washington (1969), quando surgiram os chamados “Chicago Boys”, inspirados nos monetaristas da Universidade de Chicago, Friedman e Stigler, que pregavam a redução drástica do Estado, substituído pelo princípio de que os indivíduos são “responsáveis por si próprios”, ou seja, “cada um por si”.

Seria a volta do “laissez-faire” (deixar fazer) do século XVIII, onde prevaleceu o domínio da economia, sem regulação do Estado.

James Heckman, também da Universidade de Chicago, laureado com o prêmio Nobel em 2000, considerou tal teoria superada para o século XXI.

Ele defende uma infraestrutura do capitalismo, que mantenha o Estado “regulador” como meio de preservar o livre mercado, desconcentrar a renda, respeitar a propriedade, contratos, oferta do emprego vinculada a chances de mobilidade social e a universalização do seguro social, adotado de acordo com o sistema solidarista e não individualista.

A teoria do Professor James Heckman resume-se na busca de superação da pobreza, através da “igualdade de oportunidades”, entendida como as possibilidades de acesso aos níveis básicos do bem-estar social, que proíbam a discriminação por motivos de raça, sexo, etnia, idade, religião, ou identidade sexual.

No caso do Brasil, o liberalismo social defende o Estado “necessário”, que não seja “mínimo, nem assistencialista”, sempre comprometido com a conciliação da liberdade econômica e a justiça social.

Justamente por rejeitar a intransigência dos “ideólogos” e extremistas, que se consideram habitantes do “reino da verdade”, a crença é que prevaleça a lição de Plutarco:

“O ser humano não pode deixar de cometer erros; porém é com os erros, que os homens de bom senso aprendem a sabedoria para o futuro”.

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